O trabalho emburrece o homem
Muitos chegam a uma errada conclusão do titulo do livro que atualmente estou lendo. O “The 4-Hour Workweek” ou “A semana de trabalho de 4 horas”.
No final das contas mesmo sem ler ou entender do assunto ou do autor, pensam que se resume a um guia prático para trabalhar menos, e já se enchem de preconceito e conclusões precipitadas. Pessoas que trabalham menos, automaticamente são consideradas preguiçosas por padrão, pela maioria da sociedade.
Em um seminário que participei no Sebrae, com 40 empresários bem sucedidos, mais velhos e muito mais “experientes” que eu, fomos divididos em grupos em uma dinâmica para executar uma determinada tarefa. Todos os grupos montaram um linda linha de produção e começaram a trabalhar feito loucos para conseguir o melhor resultado, enquanto eu falei para meu grupo que aquilo não fazia o menor sentido. Precisamos ser eficientes e não trabalhar mais. Precisamos planejar e estudar como ser eficientes e não gastar todo o tempo montando um linha de produção burra. No meio de tantas pessoas tão experientes, com excelente formação e com negócios bem sucedidos, porque a opinião de um cara inexperiente iria fazer a diferença. Não preciso dizer que fui completamente ignorado com a resposta padrão: “Não temos tempo para isso, apenas ajuda a sua equipe! Não vai nos ajudar ? Cadê seu espiríto de equipe ?”. No final da dinâmica nosso grupo teoricamente foi o mais eficiente e ganhamos dos outros.
Estava nervoso, porque eu sabia que mesmo ganhando aquilo não fazia sentido e continuamos sendo ineficientes. Finalmente chegou a hora do feedback por parte dos instrutores que estavam organizando a dinâmica.
Perguntaram a meu grupo o que cada um achou e todos elogiaram o trabalho da equipe com um destaque negativo para a ovelha negra aqui, que contestou o trabalho e sentiram que eu não ajudei a equipe como poderia.
Ao chegar minha vez, falei que não estava contente com o resultado, pq mesmo ganhando, estávamos sendo muito ineficientes e nossa diferença em termos de número não era muito, perto dos outros grupos concorrentes. Que não planejamos como deveríamos ter feito e que se aquilo estava certo, e eu tivesse que concordar com aquilo, então alguma coisa estava muito errada. Imagina 40 pessoas que se consideram muito melhor que você, olhando para sua cara com aquela famosa frase escrita na testa: “Esse cara é meio louco.” Frase essa que sinceramente eu já perdi as contas de quantas vezes eu ouvi nos últimos anos.
A fala voltou para os instrutores e veio a conclusão.
“Apesar de vocês terem ganhado, todos os grupos foram extremamente ineficientes. Sinceramente eu nunca vi tanta gente ineficiente na minha vida. Vocês se acham tão bons e como podem apresentar essa porcaria de resultado ? A única diferença que dá para ver nesse grupo de 40 pessoas, é o Luis que o tempo inteiro fez e pensou como vocês deveriam ter pensando nessa dinâmica. Ele foi o único que pensou sobre eficiência e planejamento aqui, enquanto todo mundo estava preocupado em tirar o melhor desempenho de um mesmo modelo de linha de produção sem nem ao mesmo ter calculado o custo disso. Se é assim que vocês administram as empresas e as vidas de vocês, então posso dizer que vocês estão no caminho da falência!” (ponto)
E logo meu sorriso ficou estampado na minha cara, de uma orelha a outra.
Hoje lendo o “The 4-Hour Workweek”, notei um paragráfo que me fez lembrar essa situação. O melhor é que notei também que algumas pessoas já começaram com leves alfinetadas sem ao menos conhecer o assunto. Para essas pessoas eu só tenho a dizer que já passei por esse tipo de preconceito, e em escala muito pior que você possa imaginar. Aliás dá até para imaginar através da história deste post. Convido a essas pessoas a lerem o livro também, e tirarem suas próprias conclusões.
O último ponto que eu ligo é o significado do “Less is more” em metodologias de desenvolvimento agéis. Já ouvi n vezes, que o menos dessa frase ai significa menos features, e que é impossível um sistema com menos features ser mais !?. Muitos profissionais, incluindo eu mesmo, se sentem muito tentados a fazer mais que o necessário na hora da construção de um software, sempre implementando uma funcionalidade a mais, por mais pequenina que seja. E digo que esse comportamento não é a toa, pois fomos condicionados a vida inteira em uma crença errada de que quantidade de trabalho ou esforço é igual a recompensa, e isso chega no software como quantidade funcionalidades é igual a quantidade de satisfação do usuário. Isso é tão forte no nosso subconsciente que se não pararmos para pensar todo dia e treinarmos o tempo inteiro não conseguiremos nos livrar desse vicio, que só no faz perder tempo.
A verdade é que 20% das funcionalidades respondem por 80% da satisfação plena do usuário, e nós como desenvolvedores, ficamos 80% do nosso tempo fazendo lixo e ainda não paramos para pensar e tentar mudar esse quadro.
Nós como pessoas, ficamos 80% do nosso tempo fazendo coisas inúteis e muitas vezes ineficientes e nem ao menos paramos para pensar nisso.
Segue o paragráfo do livro “The 4-Hour Workweek” página 32:
“…3. Less Is Not Laziness.Doing less meaningless work, so that you can focus on things of greater personal importance, is NOT laziness. This is hard for most to accept, because our culture tends to reward personal sacrifice instead of personal productivity….”
Para quem não entendeu vai uma tradução rápida:
“…3. Menos não é preguiça. Fazendo menos trabalho sem sentido, você pode se concentrar em coisas de grande importância pessoal para você, e isso não é preguiça. Isso é dificil para a maioria aceitar, por causa que nossa cultura tende a recompensar sacrificio pessoal ao invés de produtividade pessoal….”
Para finalizar com chave de ouro, uma citação que também está no livro no início do capítulo 2.
“Everything popular is wrong.” - Oscar Wilde, The Importance of Being Earnest